sábado, 31 de março de 2012

Quem é ela?

Sempre que via a fotografia dos quarenta presos políticos trocados no Brasil pelo embaixador alemão, Ehrenfried von Holleben, em junho de 1970, pensava na mulher sentada, em uma das extremidades da imagem.



A cena de sua chegada ao aeroporto, em uma cadeira de rodas, juntando-se aos demais presos políticos que embarcariam para a Argélia, retratada no filme "O que é isso, companheiro?", reforçaria a minha curiosidade em conhecer um pouco mais de sua história.

Ao começar minha pesquisa, descobri que se chamava Vera Sílvia Araújo de Magalhães e que, instantes antes de ser banida do país, ela não conseguia ficar de pé, em decorrência das torturas sofridas nos três meses em que permaneceu sob os "cuidados" de agentes a serviço do Estado Brasileiro.

Presa na semana da Páscoa, durante uma panfletagem no bairro do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, a única mulher a participar do sequestro do embaixador estadunidense, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, foi "saudada" pelos policiais na Sexta-feira Santa, com a promessa de que "seria torturada como homem, como Jesus Cristo".

Três meses depois, ao chegar ao exílio com 25 quilos a menos, debilitada e com uma hemorragia renal, ela era a prova do que ocorria no Brasil, nos "porões da ditadura".

Em janeiro de 2004, a TV Câmara veiculou o programa "Memória Política", com a economista, socióloga e guerrilheira Vera Sílvia Magalhães (duração = 60 minutos).



Vera Sílvia Magalhães - A história de uma guerrilheira
Ela poderia ter desfilado a beleza de seus vinte anos pelas calçadas de Ipanema, no Rio de Janeiro onde nasceu. Poderia ter sido uma garota que amava os Beatles e os Rolling Stones, no embalo da liberação de costumes que varreu o mundo na década de 60. Ou poderia ter concluído o curso de Economia e levado uma vida burguesa, beneficiada pelo "milagre brasileiro" que fez o País crescer dez por cento ao ano no período mais repressivo dos governos militares. Mas Vera Sílvia Magalhães amava a revolução e, como tantos jovens de sua época, não admitia viver sob a ditadura implantada pelo golpe de 64. Nenhum deles, porém, foi tão longe: ela pegou em armas, assaltou bancos, trocou tiros com forças de segurança e sequestrou o embaixador do país mais poderoso do mundo. Viu o companheiro tombar a seu lado, quando tentavam escapar de um cerco policial. E a peruca que usava para se disfarçar nos assaltos a transformou em personagem de primeira página nos jornais populares: era a loura noventa, que empunhava dois revólveres calibre 45. Acabou baleada, presa, torturada e banida do país que queria libertar. E virou personagem de um filme que concorreu ao Oscar. Trinta anos depois, vividos entre o exílio e a volta, Vera Sílvia Magalhães ainda procura seu lugar no mundo. Carrega no corpo e na alma as marcas da violência. E se pergunta o que fazer agora de tanta ousadia e tanta generosidade, de tanta coragem e tanta ternura.

* Fonte: TV Câmara










Vera Sílvia Magalhães faleceu no dia 19 de dezembro de 2007, aos 59 anos.

Não tive a honra de conhecê-la pessoalmente; portanto, não pude parabenizá-la e agradecê-la por acreditar e lutar, durante toda a sua vida, por um país melhor, mais justo.

Mas, agora, sei quem é ela...

Muito obrigado, Vera!



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